domingo, 4 de abril de 2010

QUANDO A FÉ É VÃ


Contemplo com piedade uma foto que roda o mundo: um jovem e simpático casal. Ela, bem mais jovem que ele, 17 anos aproximados, quase menina, quase boneca. Ambos sonhadores, tendo nas mãos os instrumentos de defesa de seus sonhos, ou seja: duas pistolas sofisticadas, prontas a silenciar as vozes de quem ouse interromper o idílico sentimento que os une, o amor a Deus e à Pátria. No conceito do mundo, dois rebeldes, terroristas que se armam para defesa de seus conceitos.

Ele, seu noivo, foi morto no final de 2009. Ela, a viúva negra, nesta semana se auto explodiu dentro do metrô russo, causando a morte de quarenta pessoas. Tudo em nome da criação de um Estado subserviente à lei islâmica, que produz seus mártires no mundo a custo do sangue de muitos inocentes. Tudo em nome de Deus...

Nestas horas, dou graças aos céus pela ressurreição e vida que o cristianismo nos coloca como centro de sua doutrina. Nestas horas, cai por terra qualquer definição de Deus que não seja à da plenitude oferecida por seu Filho. Por maiores e mais sagrados que sejam os sonhos de liberdade de um povo, a opção religiosa ou o sagrado respeito que devotam ao Senhor, nenhuma fé será genuína sem as sombras do túmulo vazio, onde Cristo abandonou suas vestes mortuárias para nos falar de uma dimensão maior de vida, aquela que descendo “às mansões dos mortos, subiu aos céus e está à direita do Pai”.

Cenas e fatos como este se tornam corriqueiros. Tento penetrar a fundo nas raízes de motivações tão tétricas, de pessoas que desprezam a própria vida e a de seus semelhantes como se caminhassem para a glória dos anjos e santos; que fazem da própria fé um instrumento de morte, de ódio, vingança. Esse não é o Deus que conheço. Não há espaço para Ele em corações que possuam um mínimo de dignidade e respeito à vida, amor, amor-próprio que seja, pois quem ama a si próprio, consequentemente, terá um mínimo de respeito e amor ao próximo. Respeito ao menos.

Diante de tão mesquinhos atos de fanatismo religioso meu coração se cala. Ponho-me em oração, não de súplica, mas de perdão. Sim, porque a morte da menina Dzhennet, ainda pura em seus sentimentos, ainda inocente em sua mística, tem culpa nossa; omissão cristã. Enquanto discutimos erros passados, enquanto nos engolimos mutuamente na defesa de nossas tendências, facções, grupos ou tradições, enquanto tentamos empurrar para debaixo de nossos tapetes muitas das fragilidades de uma Igreja Santa, mas também pecadora (igreja que todos somos, conquanto batizados), enquanto, enfim mascaramos nossa fé ao som de múltiplos interesses pessoais ou sociais, o mundo se implode em nome de Deus e do Diabo.

Mais que urgente, é preciso exibir a todos a bandeira branca da ressurreição. E da vida. É esse nosso trunfo maior, nossa bandeira. “Se Cristo não ressuscitasse, minha fé seria vã”, desabafou o maior pregador da fé cristã entre os gentios. E sua missão não escolheu povos, nem culturas, nem fronteiras. Não titubeou diante dos poderosos desse mundo, nem diante dos mais fracos. Pregou para religiosos e ateus, perseguidores e perseguidos. Enfrentou tempestades e naufrágios, calúnias e difamações, prisões e suplícios. Respeitou os deuses de Atenas e o Deus Desconhecido, mas nunca deixou de anunciar sua fé no Cristo Ressuscitado. Ei-lo, então: ainda que seja hoje um ilustre desconhecido de muitos povos e culturas, ainda que o reneguem publicamente nas teorias e justificativas da pseudo ciência humana, no fundo, no fundo, muitos anseiam e buscam por Ele, o Deus desconhecido de muitos, mas sonhado por todos. Para anunciá-lo não precisamos de bombas mortíferas. Ele próprio já é uma explosão... de Amor.

WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br